quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Erro de casting

"O que é que se faz quando se ouve tudo o que se queria ouvir,
mas da boca da pessoa errada?"
"Acaba por se engolir em seco
e segue-se em frente, um bocado mais vazio
e sem se saber bem para onde...
É isso que se faz..."

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Tempo

Um dia disseram-me: "O tempo cura tudo". E repetiram a frase vezes sem conta. E eu agarrei nela e convenci-me que sim, que era verdade. E acreditei. Mas depois tu voltas, e voltas e voltas... e demasiado tempo depois ainda tens a capacidade de me deixar o coração em frangalhos, com a sensação de que agarraste nele e o atiraste contra a parede vezes sem conta. Tu não sabes, mas é assim que me sinto de cada vez que voltas a aparecer. Como se me arrancassem o coração e o atirassem uma e outra vez contra a parede. E eu fico ali, feita cacos, no chão, a olhar para todos os pedaços estilhaçados, com a certeza de que algum se perdeu mais uma vez e que nunca vou ser capaz de os voltar a pôr a todos no sítio e a pensar que já era tempo de te arrancar de dentro de mim. E que, se o tempo cura tudo, quanto tempo falta para que tu deixes de ser esta ferida permanentemente aberta? Já é tempo de que saias da minha vida. É tempo de que entendas que me fazes mal. E que não voltes. Não voltes. Não voltes. Não voltes. Por favor. Eu não quero que voltes.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Incondicional

Quando eu era pequena e encolhia os pés porque não gostava da areia da praia, ele dava-me a mão.
Quando havia trovoada e eu tinha medo, ele deixava-me dormir com ele.
Quando comecei a aprender a andar de bicicleta e, volta meia volta, caía, ele ajudava-me a levantar.
Quando o mundo inteiro desabou em cima de mim outra vez e voltei a sentir como o chão me fugia debaixo dos pés, ele apanhou um avião só para me vir dar um abraço.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Velhos conhecidos

Há demasiado tempo que pensava que não era para durar. Não era para ser assim. Não era para a sua vida. Tudo demasiado perfeito. As mãos dadas. Os passeios noite dentro. As mensagens que não se esperavam. Os jantares. As esperas à saída do trabalho. E a sensação de que podia ser feliz.

Olhava à volta e à volta encontrava gente que estava nisto há muito tempo. Nove anos de um lado. Dez do outro. Mais seis ali. E oito aqui. E visto de fora era uma coisa bonita. E riam-se juntos. E continuavam a sair e a dar-se bem. E abraçavam-se daquela maneira como quem se aconchega. E tinham uma vida juntos.

Havia dias em que pensava que um dia isso também havia de ser seu. Havia dias em que o desejava com todas as forças e com toda a alma. Havia dias em que desejava que isto fosse de facto para durar. Que os 3 milhões de pedacinhos nos quais se tinha partido o seu coração há uns anos começassem por fim a juntar-se. Havia dias em que tinha esperança e conseguia sorrir e acreditar.

Depois havia os outros. Em que achava que isto era uma mentira e se afastava. Em que achava que não era para ser e que o único que fazia era forçar. Por medo de que não voltasse a ser capaz. Às vezes acha que está a queimar todos os cartuchos e a última oportunidade de que alguém lhe importe de verdade. Nunca consegue apagar a sensação de vazio.Tenta preenchê-lo com os seus sorrisos, com as palhaçadas, os mimos e os abraços que fazem que desapareça para o mundo. Por 15 minutos ou uma noite. Mas não mais.

Um dia pensou que podia voltar a voar. Um dia agarrou-se com força. Um dia quis sentir que sentia e que ia voltar a rodopiar na sua mão. Quis tanto e fechou tanto os olhos num desejo profundo que achou que não ia ser capaz de abri-los.

Mas a realidade vem sempre em forma de despertador. E foi quando percebeu que queria sentir, queria gostar, queria que lhe importasse de verdade... mas não conseguia, não era capaz. Por muito que fechasse os olhos.

E começou a sentir como o vazio voltava a crescer mas já sem doer. Só essa angústia fininha que já conhecia. Que durava o espaço que existe entre o que podia ter sido e a certeza de que não era para ser. E que se ia arrastar devagar até desaparecer outra vez.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Um dia...

Hei-de ser capaz de viver sem ter sempre o coração nas mãos...

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Fácil

Saiu do trabalho a correr. Tentou despachar-se, mas como sempre, o chefe, oportuno, tinha arranjado o pincelzinho de última hora. O sitio era perto mas, naquele momento, a avenida parecia-lhe demasiado grande. Era tudo a descer e desceu tudo a correr. Gente que parecia vir de todos os lados, o telemóvel na mão a contar os minutos, o iPod nos ouvidos, mais para fazer ruído e tapar a agitação da rua do que para ouvir o que fosse, e as mãos apertadas, com as unhas cravadas nas palmas até doer mas sem sentir dor. Um semáforo... espera... a polícia que resolve controlar o trânsito no pior dos dias... 2, 3 minutos e volta a correr outra vez... Atravessa as últimas duas ruas sem prestar muita atenção e sobe as escadas... 19h25... cinco minutos antes. Respira fundo e olha à volta. Nada, como seria de esperar. Escolhe um sítio,

"Que mais dá, se são todos iguais?"

Dá uma volta e outra, e senta-se. A música mais alta e um vulto ao longe... 19h38... é? é? é? não é... Fotografias,

"Não quero sair em nenhuma fotografia..."

artistas e desenhos a carvão e em nenhum deles estavas.

19h46... mãos nos joelhos, cabeça baixa e resignação.

"Não vem, não está, em quatro minutos acaba."

Suspiro e lágrimas e um levantar de cabeça. E vê-te ao longe. E aproximas-te e nem dizes nada. E só lhe agarras no braço e apertas com força o seu corpo contra o teu e dizes-lhe que estás ali, que vieste e não vais embora, que tudo isto é uma loucura mas das boas, das que vincam na alma e que percebeste tudo, até o silêncio, e que vais deixar que mergulhe na tua vida como mergulhou agora: de cabeça e sem bóias nem salva-vidas, mesmo que não saiba nadar porque não deixas que se afunde, prometes. E ris-te e ainda não acreditas no que aconteceu e que alguém seja louco de atirar-se a este ponto.

Mas atirou-se. Tinha medo mas, por uma vez, não lhe deu ouvidos. E correu avenida abaixo de coração apertado e mãos fechadas. E esperou e tu vieste. E agora estais aí e não sabeis bem que fazer com tudo isto que se vos escapou das mãos. Com a ameaça de felicidade que não quisestes reconhecer num primeiro momento. Com a certeza de que é uma coisa boa mas que quase estragais com tanto medo e tanto pensar. E agora estais aí, deitados na relva até anoitecer. E tu apareces todos os dias e dás-lhe a mão e deixas-te levar.



Let´s go back to the start

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Vivo

“(...) tinha 36 anos, e lembro-me por isso mesmo, porque foi o ano da minha vida em que me senti mais novo. Nem aos 25, nem aos 21, nem aos 18. Foi aos 36 anos de idade que eu me senti eternamente jovem, quase imortal ou, mais arrepiante ainda, indiferente à própria ideia de morte. E, se eu era jovem, tu, a meus olhos, eras a própria juventude. Tudo em ti, não apenas os teus absurdos 21 anos: a própria maneira um pouco estouvada de caminhares, como se ainda não tivesses aprendido bem a andar, a maneira de parares, virar a cabeça e sorrir por cima do ombro, os teus ares de menina pequenina que precisa de ser embalada, que alternavas com vãs tentativas de pareceres mulher adulta e sabida (...)”

Miguel Sousa Tavares - "No teu deserto"
No final ela morre...