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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Outra vez

Esta noite sonhei contigo. Estou cansada, preciso de dormir, mas voltei a sonhar contigo. O meu corpo tem esta capacidade estranha de rejeitar descanso quando mais preciso dele. Lembro-me de quando te deixava às quatro da manhã e caía na cama como se desmaiasse. O corpo, pesado, inerte, perdia os sentidos mal pousava a cabeça na almofada. Parecia que não ia abrir os olhos durante três dias seguidos. Mas três horas depois lá estavam as pálpebras a ceder. O corpo continuava pesado, mas a cabeça já ia longe, o cérebro contorcia-se com a tua imagem e a ideia de te ver horas depois enchia-me o peito sem me deixar respirar. Vinha o aperto, a falta de ar, a angústia e o corpo a pedir descanso.
“Dorme”

E o cérebro a lutar contra, a demorar-se no teu nariz e no teu sorriso.

E o corpo a arrastar-se de um lado ao outro da cama, pastoso, pesado, como se se quisesse fundir com o colchão e ser engolido pelos lençóis.

“Dorme”

E a maneira como acendes o cigarro sem me sair da cabeça,

“Dorme”

e tu a chegares o isqueiro ao cigarro e a chama a aparecer
,
“Dorme”

e a tua mão direita a tirar o cigarro da boca, os lábios juntos a deitar o fumo fora
.
“Dorme”

E depois a mesma mão pousada no volante, com o cigarro entre o indicador e o dedo médio, quase junto aos nós dos dedos,

“Dorme”

enquanto viravas o rosto e olhavas para mim, antes de passares a mão pela testa para desviares o cabelo.

(E esse momento, que durava só uns escassos segundos na realidade, na minha cabeça demorava uma eternidade, tal a exactidão com que era capaz de descrever cada movimento, cada expressão.)

E finalmente o corpo a ceder, ainda pesado, e as pálpebras a abrir, e os olhos cravados no tecto.
“Acorda”

E um sorriso que nem eu percebia e ficar mais duas horas assim, acordada, com o edredão até ao nariz e os olhos no tecto, à espera que o despertador tocasse.

E hoje voltei a sonhar contigo. Voltei a acordar com a boca seca e o corpo espesso. A reclamar descanso. E o cérebro sem lhe obedecer, a perder-se na tua imagem e nos teus braços que me apertavam com força.

E voltaste a estar a cinco centímetros de distância da minha boca. Nessa espécie de tortura boa que só nós entendíamos e que éramos capazes de prolongar até ao limite do impossível.

Esta noite sonhei contigo, dizia eu. Vinhas e era tudo fácil e perfeito, como sei que seria se viesses de facto. Vinhas e eu voltava a ser a miúda de antes, cheia de sonhos e ingénua e com a capacidade de acreditar intacta. Vinhas e fazias-me bem.

(Porque sempre me fizeste bem. Quando vinhas, quando estavas. Quando esquecias o mundo e aceitavas sem reservas que te sentias bem comigo.)

Hoje sonhei contigo e queria escrever-te outra coisa. Queria escrever-te qualquer coisa diferente, mais nova, menos batida. Mais racional. Mais distante e mais fria. Queria escrever-te o que devo, mas só me sai o que me apetece. Só me sai o que sinto. Só me sai que te adoro.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nada mais

Aquele abraço condensou tudo. As saudades. A memória de um tempo em que era genuinamente feliz. A certeza de que não ia voltar a ser assim. E do outro lado, outros dois braços apertados à volta de um mesmo sentimento. Duas lágrimas gordas que não conseguiu evitar. Um soluço. E nem sabe bem porquê. Um abraço mais apertado e a sensação de um nó que se desfaz. Que ainda se desfaz. E mais duas lágrimas a rolar cara abaixo, num pranto que deixou de ser contido, como se quisesse deitar fora toda a angústia, naquela mistura de passado e presente, de um querer voltar atrás sem poder. A certeza de que ainda se compreendem sem falar, a certeza de que os passos daquele dia estavam repletos de palavras e silêncios com um significado que só os dois conheciam. E não fazia falta mais nada.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tempo

Um dia disseram-me: "O tempo cura tudo". E repetiram a frase vezes sem conta. E eu agarrei nela e convenci-me que sim, que era verdade. E acreditei. Mas depois tu voltas, e voltas e voltas... e demasiado tempo depois ainda tens a capacidade de me deixar o coração em frangalhos, com a sensação de que agarraste nele e o atiraste contra a parede vezes sem conta. Tu não sabes, mas é assim que me sinto de cada vez que voltas a aparecer. Como se me arrancassem o coração e o atirassem uma e outra vez contra a parede. E eu fico ali, feita cacos, no chão, a olhar para todos os pedaços estilhaçados, com a certeza de que algum se perdeu mais uma vez e que nunca vou ser capaz de os voltar a pôr a todos no sítio e a pensar que já era tempo de te arrancar de dentro de mim. E que, se o tempo cura tudo, quanto tempo falta para que tu deixes de ser esta ferida permanentemente aberta? Já é tempo de que saias da minha vida. É tempo de que entendas que me fazes mal. E que não voltes. Não voltes. Não voltes. Não voltes. Por favor. Eu não quero que voltes.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Velhos conhecidos

Há demasiado tempo que pensava que não era para durar. Não era para ser assim. Não era para a sua vida. Tudo demasiado perfeito. As mãos dadas. Os passeios noite dentro. As mensagens que não se esperavam. Os jantares. As esperas à saída do trabalho. E a sensação de que podia ser feliz.

Olhava à volta e à volta encontrava gente que estava nisto há muito tempo. Nove anos de um lado. Dez do outro. Mais seis ali. E oito aqui. E visto de fora era uma coisa bonita. E riam-se juntos. E continuavam a sair e a dar-se bem. E abraçavam-se daquela maneira como quem se aconchega. E tinham uma vida juntos.

Havia dias em que pensava que um dia isso também havia de ser seu. Havia dias em que o desejava com todas as forças e com toda a alma. Havia dias em que desejava que isto fosse de facto para durar. Que os 3 milhões de pedacinhos nos quais se tinha partido o seu coração há uns anos começassem por fim a juntar-se. Havia dias em que tinha esperança e conseguia sorrir e acreditar.

Depois havia os outros. Em que achava que isto era uma mentira e se afastava. Em que achava que não era para ser e que o único que fazia era forçar. Por medo de que não voltasse a ser capaz. Às vezes acha que está a queimar todos os cartuchos e a última oportunidade de que alguém lhe importe de verdade. Nunca consegue apagar a sensação de vazio.Tenta preenchê-lo com os seus sorrisos, com as palhaçadas, os mimos e os abraços que fazem que desapareça para o mundo. Por 15 minutos ou uma noite. Mas não mais.

Um dia pensou que podia voltar a voar. Um dia agarrou-se com força. Um dia quis sentir que sentia e que ia voltar a rodopiar na sua mão. Quis tanto e fechou tanto os olhos num desejo profundo que achou que não ia ser capaz de abri-los.

Mas a realidade vem sempre em forma de despertador. E foi quando percebeu que queria sentir, queria gostar, queria que lhe importasse de verdade... mas não conseguia, não era capaz. Por muito que fechasse os olhos.

E começou a sentir como o vazio voltava a crescer mas já sem doer. Só essa angústia fininha que já conhecia. Que durava o espaço que existe entre o que podia ter sido e a certeza de que não era para ser. E que se ia arrastar devagar até desaparecer outra vez.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Fácil

Saiu do trabalho a correr. Tentou despachar-se, mas como sempre, o chefe, oportuno, tinha arranjado o pincelzinho de última hora. O sitio era perto mas, naquele momento, a avenida parecia-lhe demasiado grande. Era tudo a descer e desceu tudo a correr. Gente que parecia vir de todos os lados, o telemóvel na mão a contar os minutos, o iPod nos ouvidos, mais para fazer ruído e tapar a agitação da rua do que para ouvir o que fosse, e as mãos apertadas, com as unhas cravadas nas palmas até doer mas sem sentir dor. Um semáforo... espera... a polícia que resolve controlar o trânsito no pior dos dias... 2, 3 minutos e volta a correr outra vez... Atravessa as últimas duas ruas sem prestar muita atenção e sobe as escadas... 19h25... cinco minutos antes. Respira fundo e olha à volta. Nada, como seria de esperar. Escolhe um sítio,

"Que mais dá, se são todos iguais?"

Dá uma volta e outra, e senta-se. A música mais alta e um vulto ao longe... 19h38... é? é? é? não é... Fotografias,

"Não quero sair em nenhuma fotografia..."

artistas e desenhos a carvão e em nenhum deles estavas.

19h46... mãos nos joelhos, cabeça baixa e resignação.

"Não vem, não está, em quatro minutos acaba."

Suspiro e lágrimas e um levantar de cabeça. E vê-te ao longe. E aproximas-te e nem dizes nada. E só lhe agarras no braço e apertas com força o seu corpo contra o teu e dizes-lhe que estás ali, que vieste e não vais embora, que tudo isto é uma loucura mas das boas, das que vincam na alma e que percebeste tudo, até o silêncio, e que vais deixar que mergulhe na tua vida como mergulhou agora: de cabeça e sem bóias nem salva-vidas, mesmo que não saiba nadar porque não deixas que se afunde, prometes. E ris-te e ainda não acreditas no que aconteceu e que alguém seja louco de atirar-se a este ponto.

Mas atirou-se. Tinha medo mas, por uma vez, não lhe deu ouvidos. E correu avenida abaixo de coração apertado e mãos fechadas. E esperou e tu vieste. E agora estais aí e não sabeis bem que fazer com tudo isto que se vos escapou das mãos. Com a ameaça de felicidade que não quisestes reconhecer num primeiro momento. Com a certeza de que é uma coisa boa mas que quase estragais com tanto medo e tanto pensar. E agora estais aí, deitados na relva até anoitecer. E tu apareces todos os dias e dás-lhe a mão e deixas-te levar.



Let´s go back to the start

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A tempo

Chegava sempre tarde. Aos jantares de família, aos encontros com os amigos e até ao trabalho. As 21h15 sempre se transformavam nas 21h30 e por aí adiante. Não o fazia por mal. À excepção de quando ia trabalhar (quando sempre tinha de lutar consigo mesma uns minutos longos antes de se conseguir livrar dos lençóis) fazia sempre por chegar a tempo. Começava a arranjar-se a horas prudentes mas sempre chegava tarde. Sistematicamente. E mesmo quando decidiu adiantar o relógio, o resultado era o mesmo. Ela ria-se, encolhia os ombros e dizia que não tinha culpa. Que seria intrínseco, endógeno, genético até… e nunca deu muita importância à coisa.

Até ao dia em que percebeu que também era possível chegar tarde (ou pelo menos não a tempo) à vida de alguém.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

De vez

Desta vez é que é. Eu sei que já disse isto mais vezes e volta sempre ao mesmo. Eu sei que já te virei as costas e continuo sempre a olhar-te de soslaio. Eu sei que já não têm conta as vezes que fechei a porta (deixando sempre o pé para trás, para ela só ficar encostada). Mas desta vez é que é.
Tem de ser.
Já adiei isto vezes sem conta, mas agora já não posso mais.
Tenho de ser capaz.
Devo-o a mim mesma e aos anos que perdi estagnada, andando para a frente, correndo, fugindo até... mas sempre num caminho que sabia que se iria cruzar com o teu, mais cedo ou mais tarde.

Tu foste um egoísta. Quando eu podia (e queria) pôr um ponto final, quando estava pronta para seguir em frente e deixar-te para trás, tu não deixaste. Agarraste-me de mil e uma maneiras, dessa maneira tão tua de me prender enquanto me dizes que voe e que tu não tens nada a ver com isso. Dessa tua maneira de me dizer ‘Quero-te aqui’, enquanto me afastas e me fazes crer que a decisão é minha e que posso sair quando quiser, quando na verdade a única coisa de que estás à espera é do momento certo para me atirares com a cana de pesca e recolheres a linha até que eu sinta a tua respiração no meu nariz outra vez.

Durante todo este tempo, tu fizeste as regras, tu jogaste e eu deixei-te jogar por mim. E sempre que lancei os dados fiz o teu jogo. E não por ingenuidade ou ignorância. Não. Não me vou mentir e não te vou mentir. Lamento, mas desta vez vais ter de me ouvir. O que eu queria, a única coisa que eu sempre quis foi que me escolhesses. Que me escolhesses a mim. Nunca me importei de que forma e houve uma altura em que esqueci tudo o que teria de enfrentar para ficar contigo. Eu escolhi-te. A ti. Com os teus defeitos. Com o teu passado. E com todos os danos colaterais. Tu não foste capaz.

Não importa os problemas que tinhas. Nem importa o quão difícil era. Tu nunca quiseste saltar para o vazio comigo. Empurraste-me, puxaste-me, e na hora H ficaste agarrado e deixaste-me cair sozinha. E nunca me escolheste a mim.

Agora sei que eu fui apenas um intervalo. Uma espécie de estrela cadente na tua vida. Por segundos acreditaste que eras capaz, que ainda valia a pena tentar. Fizeste de mim a tua tábua de salvação e fizeste-me acreditar que tudo era real. Mas ninguém salva ninguém, lembras-te? E tu nunca quiseste que eu deixasse de ser apenas uma estrela. Fugaz.

Para todas as tuas desculpas e os teus problemas há uma única expressão. 'Não quero'. Não é 'não posso'. Nem 'não consigo'. É apenas 'não quero'. E, por isso, eu tenho de ser capaz. Porque gosto – sim, ainda gosto – muito de ti. Mas tenho de gostar mais de mim.

E porque um dia tu disseste-me que davas a vida por mim. Mas – e isso é que era importante –, tu nunca foste capaz – porque não querias, não te esqueças – de viver comigo.

E de me escolher a mim.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Brincar às escondidas

Apaixonei-me por ti. Foi de repente. À primeira vista e sem sequer me dar conta. E quando dei já era tarde demais. Tens os olhos castanhos e a pele morena, queimada do sol. O cabelo escuro e o sorriso de quem só está à espera da primeira oportunidade para fazer alguma - a eterna obsessão pelo abismo, como não podia deixar de ser. A barba de três dias e o ar distraído de quem anda pelo mundo ao acaso, sem saber muito bem porquê.

Conhecemo-nos por acaso, num bar ou numa festa de um amigo. Passámos um pelo outro e só trocámos um olhar. E foi só ao final da noite, enquanto eu procurava o casaco numa montanha de roupa, que te aproximaste. Vinhas com os olhos brilhantes de quem já tinha bebido um copo a mais e um sorriso de garoto de cinco anos que tinha acabado de fazer asneira. Disseste-me uma barbaridade qualquer que, felizmente, não entendi e eu olhei-te com ar de enfado

-'Mas o que é que este quer?'


Deves ter achado graça ao meu humor de ratazana porque te escangalhaste a rir e nem soltaste nenhuma parvoíce do género 'que gira que ficas quando te zangas'. Dei-te cinco segundos e comecei a contar mentalmente

'5,4,...'

- 'Sei que não devia, mas que se lixe, posso pedir-te o número?'
E nisto agarraste na palma da minha mão e começaste a escrever o teu a caneta.
- 'Só para veres que jogo limpo, já te dei o meu'.

-'Serás desgraçado???'

Mas achei-te graça. E dei-te o número

-'Capítulo 7... vamos a ver quanto tempo aguentas'.


Ligaste-me quando já nem me lembrava.
- 'És quem?'
- 'Conhecemo-nos no outro dia, apontei-te o meu telemóvel na mão'.
- 'Ah!’ (O teu telemóvel tinha ido pia abaixo com água e sabão)
Combinámos um café

-
‘5, 4, 3.. a ver quanto te aguentas’

que se transformou em copo noite fora e em conversas intermináveis de madrugada. E depois combinámos outro para outro dia e outro para mais adiante.

E houve um dia em que realmente olhei para ti. Olhei-te a sério. Sem o sarcasmo por detrás

(- 'a ver quanto te aguentas')

e falei-te a sério, sem o tom de desafio que tinha usado até aqui e baixei a guarda. E foi quando me dei conta que me ria, ria muito contigo. Que as minhas pernas tremiam quando te via. Que ficava com a boca seca quando deixávamos de falar e se instalava esse silêncio comprometedor. Que sufocava e quase parava de respirar nas milésimas de segundo em que a tua mão tocava ao de leve, como que sem querer, na minha.

E foi quando percebi que desta vez é que era. Que gostava mesmo de ti.

E agora que já sabes como tudo aconteceu, já podes aparecer na minha vida, ok?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

As fadas

- Acreditas em fadas?
- Não sei, acho que nunca vi nenhuma.

As fadas caracterizam-se por duas coisas: as estrelas que lhes saem dos pés ao andar e o ar travesso. Andam quase sempre em bicos dos pés, sem fazer barulho. Quando ninguém as vê, gostam de fazer piruetas em pontas, com os braços arqueados à volta do corpo fino. Normalmente deixam um rasto de luz. São difíceis de detectar porque não estão ao alcance do olhar de todos.

Gostam de se disfarçar de gente normal para pasarem despercebidas nas multidões. Sorrateiras. Seria o adjectivo adequado.

Têm doseadores de felicidade porque normalmente são tão esfuziantes que correm o risco de explodir numa gargalhada. E os danos colaterais não são bonitos. De felicidade ou não, são um cocktail molotov em potência.

Houve casos de fadas que explodiram no meio de gente que ficou contagiada para sempre dessa alegria inebriante. Não é bom. Os humanos precisam chorar.

Sonham. Muito e a todas as horas. Têm termómetros de precisão que medem a exacta necessidade de ilusão na vida de cada um. Põe pequenas pinceladas no dia a dia e esperam que os humanos não se desviem das suas armadilhas. Quase sempre acontece e elas ficam irritadas, vermelhas e com fumo a sair pelas orelhas (por isso também vêm equipadas com doseadores de raiva… as explosões de raiva são piores).

Mas são pacientes e por isso voltam a esticar o fio da ilusão à espera que alguém caia. Os afortunados que não se desviam e tropeçam, sabem que se encontraram com uma fada porque essa noite voltam a sonhar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Do que não volta

Vão sentados no metro, no banco em frente. Entram sorridentes e de mãos dadas e sentam-se. Nota-se que são de fora mesmo antes de falarem. Na verdade não falam muito. Ele, loiro e de olhos azuis, cruza o olhar com a miúda da frente. Olha-a a de diferentes maneiras e de diversas vezes e mexe-se no banco, inquieto. Como se a qualquer momento se fosse levantar direito a ela. Mas não vai.

Ao lado, a rapariga que entrou com ele finge que não repara. Aconchega-se nele, encosta a cabeça no ombro dele e fecha os olhos. Espera. Volta a abri-los e, ao lado, nem um movimento. Vira o olhar para ele, que permanece estático, olhando na direcção da outra miúda

Volta a fechar os olhos. E quando os abre estão pejados de lágrimas que ela não quer deixar cair.

Abre e fecha. Abre e fecha. E a mesma impassividade ao lado.

Ele já não é dela há muito tempo e ela sabe-o. e sabe também que ele nunca será capaz de verbalizar o que grita nesse silêncio imóvel. E ela prefere a ilusão de o ter num recanto sossegado.

Fecha os olhos. Ele suspira resignado e finalmente apoia a cabeça na cabeça dela que pesa no seu ombro.

No banco da frente a miúda levanta-se e sai na paragem seguinte. Ele limita-se a segui-la de soslaio, sem coragem de a encarar de frente.

Sabe que acabou de se apaixonar e de deixar o momento sair pela porta.

sábado, 21 de março de 2009

Dores de crescimento

Houve um tempo em que te achei impregnado em mim. Impregnado, uma coisa que levava na pele, que carregava para trás e para a frente. Transpiravas-me nos poros, saías-me nos restos de fôlego depois de correr, pairavas no ar depois de cada passa no cigarro. Eras como uma nódoa dessas entranhadas que não saem nem com esfregão de arame. Uma marca de nascença. Um sinal.

Hoje acho-te só uma dor de crescimento. Daquelas que te fazem fechar os olhos e apertar a cabeça com força. Das que ficam ali, a moer, numa dor fininha e persistente até desaparecerem.

E eu precisei de 696 dias e 22 horas para que tu desaparecesses de dentro de mim.

Para que deixasse de doer cá dentro, para que, volta meia volta, não regressasses em forma de dor aguda. Para te arrancar a ferros, para me lavar por dentro e aprender a respirar sem ti. (E isso que sempre foi difícil respirar contigo. Esse nó cá dentro, esse peso no peito.)

"-Voltas?"
"-Diz-me que voltas..."

Precisei de 696 dias. Contados no calendário, entrapados em lágrimas, escorridos em horas de angústia e de raiva. De dentes cerrados até doer. E finalmente livre. Finalmente sem ti. Finalmente o olhar-te nos olhos e já não está. Foi-se a dor fininha. Foste-te.

22horas. Para pensar em como apagar as marcas. Para suspirar por última vez, deitando fora o último sopro de ti.

Precisei de te ter, de te sentir e perder e recuperar e deixar ir e afastar-te e odiar-te... tanto, tanto, tanto! Com tanta força e de olhos tão fechados numa tentativa inútil. E outra vez a cair e a dizer que desta é que é, desta é que vai ser o certo e a esquecer que eras um erro. O meu erro, o maior erro... (mas porquê tão certo?)... A minha maior verdade. Dessas que batem de frente. Cruas e definitivas.

Precisei de 696 dias e 22 horas para crescer. Para te fechar a porta e deixar ir sem olhar para trás. Mas tu tens de ganhar sempre, não é?

"-Eu jogo muito bem e não gosto de perder."

E por isso foste, mas levaste contigo o que eu fui antes de te conhecer. Por isso volta. Diz-me que voltas. Não que voltas para mim. Mas que voltas. Só para me devolveres o que eu fui. E depois podes ir. Não fiques. Eu não quero que fiques.

domingo, 8 de março de 2009

Numb


Um dia acordas e percebes que já não existe. É uma sensação estranha, não sabes bem o que é, mas já não existe. E olhas para ti, para dentro, e de dentro para fora e viras-te do avesso e voltas a procurar e não existe. Encolhes os ombros e dizes que não importa. Mas não sabes em que momento acabou. Onde desapareceu. Em que esquina ficou depois de que tu seguisses em frente. Sabes que já não está. Continuas com a tua vida, preenches os espaços vazios com coisas mais vazias ainda que os enchem de nada.

No fundo, sabes que algum dia voltarás a subir aos telhados e a conversar até amanhecer. E que um dia vais dar a mão outra vez e dançar ao som do saxofone do miúdo que sempre toca ao fundo da rua. E que vais voltar a soltar gargalhadas ao quadrado e que a vida vai voltar a ser mais que um encolher de ombros.

Que um dia acordas, e percebes que voltaste a sentir.

(Não, não sabes nada disto. Mas preferes acreditar que sim.)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Agora não

"If I told you things I did before
told you how I used to be
would you go along with someone like me"

(Sim e sempre o soubeste.)
Nunca lhe assustou o teu passado, os erros de antes, a pessoa que eras e da qual tinhas tanto pudor em falar. Nunca quis saber. E achava graça à maneira embaraçada como falavas, como passavas a mão por cima das sobrancelhas ou pelo cabelo e ficavas estupefacto, a olhar para ela sem saber porquê.

-"Não sei porque raio te conto isto".

Olhavas para o lado, rias-te, passavas a mão pelo cabelo e abanavas a cabeça... Sempre.

Vistos de fora sempre seríeis um par estranho: ela, doce, delicada, amável, sempre com passos de bailarina e, ao teu lado, pequenina; tu, alto, meio bruto e ríspido, com mau feitio e mau humor crónicos. Ainda assim, vá-se lá saber porquê, entendíeis-vos. E éreis capazes de ficar horas a fio a conversar, sem ter de haver um fio condutor ou um sentido naquilo que dizíeis. Ela tirava de ti o lado mais meigo. Tu roubavas-lhe o sarcasmo e a ironia. E o tempo passava, quase sempre, depressa demais. E de fora ninguém entendia. E dentro também não. Porque tu achavas que ela era irreal e não podia existir e ia esfumar-se cedo ou tarde e ela achava que... ela não sabia o que achava.

"If you knew my story word for word
had all of my history
would you go along with someone like me"

(Sim, sabes que sim.)
Nunca quiseste acreditar que podia acontecer outra vez. Isto de te apaixonares sem sentido e sem razão. Aconteceu. De um dia para o outro. De tanta fuga e tropeção e tentativa e erro e um nos braços do outro e os dois de lágrimas nos olhos e um adeus e um pára e recomeça e quero-te mas não posso e posso mas não quero e não devo e os dois sem dormir. E risos. E não quero saber e amo-te e preciso-te e gosto-te e desespero e adeus. E angústia. E sufoco. E sozinhos os dois. E dúvidas por certezas e mais fácil e tão difícil. E um nó que não se desfaz. E vazio. E silêncio.

Aos poucos, o ar voltou a passar e a respiração voltou ao normal. E tu fazias a tua vida e ela fazia a dela. E os dois a arrastar o amor nas horas e nos dias. Ou isso ou a enlouquecer.

- "Esqueci-te".
- "Esqueci-te".
- "Não te esqueci".


E parecia que nunca ia passar e o peso sempre no peito. E os olhos a fechar e a mesma imagem no escuro.

E um dia o voltar atrás. E já não a mão pelo cabelo. Nem o sorriso ou a dúvida. E tu a voltares a ser quem foste. E ela a encolher. E copos e conversas e gestos e tu não és esse. E ela a encolher. E um ponto pequenino no fundo do bar e tu a agarrares-lhe a mão e ela a já não estremecer. E ela a querer desaparecer e já não igual, já não os mesmos. E tanta vontade de ser diferente e agora já é. E perdida. E vazio. E silêncio. E o aperto mas não o mesmo.

Nunca quis saber de quem foste, o que foste, o que fizeste, o que pensaste. Antes. E tu nunca acreditaste que ela podia gostar de ti assim. Agora. E orgulhar-se e querer-te para sempre. Assim. Tão inacreditavelmente opostos e contrários. E por não acreditares não exististe. Sempre o mesmo, sempre o voltar atrás e o medo de ser maior e o agarra e larga e deixa estar que eu sou capaz e não preciso. E precisavas. Mas não querias. E acabou.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Os bons


"Mãe, porque é que os bons ganham sempre?"

A pergunta era frequente e desconfio que ela nunca lhe soube responder com certeza. Olhava para a televisão, com os olhos pequeninos e curiosos, onde patifes e superheróis lutavam todos os dias e franzia o sobrolho. Naquele quadrado, os bons, ensanguentados, doridos e espezinhados, levantavam-se mesmo quando parecia que tudo estava perdido e no último momento iam buscar forças sabe-se lá onde para darem cabo dos maus. Era assim, uma e outra vez. E ele franzia o sobrolho.

"Mãe, porque é que os bons ganham sempre?"

Alguma coisa ali não batia certo e ele já o sabia, apesar da distancia que ia do chão à sua cabeça ser pouco mais de um metro. Sentado no chão, em cima da sua manta, com meia dúzia de brinquedos à volta, fingia que se contentava com as respostas dos adultos, mas continuava a franzir o sobrolho. Até porque lá na escola havia meninos bons que apanhavam forte e feio do espertalhão da turma, que em vez de cérebro tinha banha (o que aos 7 anos é tão importante como ter músculos aos 20). Um dia haveria de descobrir.

"Porque é que os bons ganham sempre?"

Ele ainda não sabia mas haveria de ser um dos bons. Desses que se escondem em mil carapaças e que fingem que para eles está tudo bem e tudo vai dar ao mesmo enquanto, por dentro, o coração encolhe, encolhe, até ficar do tamanho de uma ervilha. Ele haveria de ser dos bons. Dos que infernizavam a vida da irmã mais nova, dos que a enxotavam quando estavam com os amigos e se riam do seu medo insano de cães. Dos que usavam o seu pânico por cobras para lhe dizer que debaixo da cama dela havia um ninho de víboras e obrigá-la a dormir com os joelhos no pescoço e acordar com as pernas dormentes. Dos que a ensinavam a andar de bicicleta e a ajudavam a levantar-se sempre que ela caía. Ele seria dos bons. Dos que riem com gargalhadas largas e bem dispostas, dos que fazem cócegas no espírito dos outros quando estão presentes. Dos que abraçam e gostam e cuidam. Dos bons. Dos que sonham sem acreditarem que também sonham, dos que choram ainda que poucas vezes o reconheçam, dos que têm o coração do tamanho do mundo e nem o sabem.

E ele é dos bons e não o sabe.

Mas já descobriu o segredo que o intrigou meia vida. Só não percebe o que de tão difícil havia na explicação de tal coisa.

"Na televisão os bons ganham sempre, porque na vida real isso quase nunca acontece."

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Imprevistos

Sempre gostou de ter tudo organizado. Abria o armário e ali estavam as camisolas dobradas por cores, do mais claro ao mais escuro, num dégradée perfeito. As calças de um lado, os fatos do outro, as camisas sempre impecavelmente passadas a ferro.

Tudo nele era certinho e arrumado. O risco no cabelo, nem ao centro nem demasiado ao lado, o sorriso, nem muito expressivo nem de circunstancia, o nó da gravata ao meio, o apertar de mãos sempre na medida certa, os sapatos engraxados e o primeiro botão, só o primeiro botão, do fato apertado.

O tempo sempre cronometrado ao segundo para chegar ao trabalho sem um cabelo fora do sítio, sem correr e sem ter de esperar pela hora certa. Às 9h em ponto la estava ele, cartão de ponto na mão e andar decidido. Os dias sucediam-se na calma perfeita de uma to-do list na agenda com intervalos apropriados entre cada acontecimento e nada de imprevistos.

E por isso, quando ela chegou, metade arco-íris, metade vendaval, como um rodopio de vento e sol que lhe trocava os sentidos e lhe desalinhava o cabelo sem pedir licença e ainda lhe disse: "Posso contar-te um segredo? Não faço ideia do que estou a fazer"... ele, claro, não percebeu.