Aquele abraço condensou tudo. As saudades. A memória de um tempo em que era genuinamente feliz. A certeza de que não ia voltar a ser assim. E do outro lado, outros dois braços apertados à volta de um mesmo sentimento. Duas lágrimas gordas que não conseguiu evitar. Um soluço. E nem sabe bem porquê. Um abraço mais apertado e a sensação de um nó que se desfaz. Que ainda se desfaz. E mais duas lágrimas a rolar cara abaixo, num pranto que deixou de ser contido, como se quisesse deitar fora toda a angústia, naquela mistura de passado e presente, de um querer voltar atrás sem poder. A certeza de que ainda se compreendem sem falar, a certeza de que os passos daquele dia estavam repletos de palavras e silêncios com um significado que só os dois conheciam. E não fazia falta mais nada.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Nada mais
Aquele abraço condensou tudo. As saudades. A memória de um tempo em que era genuinamente feliz. A certeza de que não ia voltar a ser assim. E do outro lado, outros dois braços apertados à volta de um mesmo sentimento. Duas lágrimas gordas que não conseguiu evitar. Um soluço. E nem sabe bem porquê. Um abraço mais apertado e a sensação de um nó que se desfaz. Que ainda se desfaz. E mais duas lágrimas a rolar cara abaixo, num pranto que deixou de ser contido, como se quisesse deitar fora toda a angústia, naquela mistura de passado e presente, de um querer voltar atrás sem poder. A certeza de que ainda se compreendem sem falar, a certeza de que os passos daquele dia estavam repletos de palavras e silêncios com um significado que só os dois conheciam. E não fazia falta mais nada.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Incondicional
Quando eu era pequena e encolhia os pés porque não gostava da areia da praia, ele dava-me a mão.Quando havia trovoada e eu tinha medo, ele deixava-me dormir com ele.
Quando comecei a aprender a andar de bicicleta e, volta meia volta, caía, ele ajudava-me a levantar.
Quando o mundo inteiro desabou em cima de mim outra vez e voltei a sentir como o chão me fugia debaixo dos pés, ele apanhou um avião só para me vir dar um abraço.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O dia da marmota
"This winter... is ever going to end?"
Tu sabes. Eu também. Com mais ou menos seis semanas acaba sempre.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Os bons
"Mãe, porque é que os bons ganham sempre?"
A pergunta era frequente e desconfio que ela nunca lhe soube responder com certeza. Olhava para a televisão, com os olhos pequeninos e curiosos, onde patifes e superheróis lutavam todos os dias e franzia o sobrolho. Naquele quadrado, os bons, ensanguentados, doridos e espezinhados, levantavam-se mesmo quando parecia que tudo estava perdido e no último momento iam buscar forças sabe-se lá onde para darem cabo dos maus. Era assim, uma e outra vez. E ele franzia o sobrolho.
"Mãe, porque é que os bons ganham sempre?"
Alguma coisa ali não batia certo e ele já o sabia, apesar da distancia que ia do chão à sua cabeça ser pouco mais de um metro. Sentado no chão, em cima da sua manta, com meia dúzia de brinquedos à volta, fingia que se contentava com as respostas dos adultos, mas continuava a franzir o sobrolho. Até porque lá na escola havia meninos bons que apanhavam forte e feio do espertalhão da turma, que em vez de cérebro tinha banha (o que aos 7 anos é tão importante como ter músculos aos 20). Um dia haveria de descobrir.
"Porque é que os bons ganham sempre?"
Ele ainda não sabia mas haveria de ser um dos bons. Desses que se escondem em mil carapaças e que fingem que para eles está tudo bem e tudo vai dar ao mesmo enquanto, por dentro, o coração encolhe, encolhe, até ficar do tamanho de uma ervilha. Ele haveria de ser dos bons. Dos que infernizavam a vida da irmã mais nova, dos que a enxotavam quando estavam com os amigos e se riam do seu medo insano de cães. Dos que usavam o seu pânico por cobras para lhe dizer que debaixo da cama dela havia um ninho de víboras e obrigá-la a dormir com os joelhos no pescoço e acordar com as pernas dormentes. Dos que a ensinavam a andar de bicicleta e a ajudavam a levantar-se sempre que ela caía. Ele seria dos bons. Dos que riem com gargalhadas largas e bem dispostas, dos que fazem cócegas no espírito dos outros quando estão presentes. Dos que abraçam e gostam e cuidam. Dos bons. Dos que sonham sem acreditarem que também sonham, dos que choram ainda que poucas vezes o reconheçam, dos que têm o coração do tamanho do mundo e nem o sabem.
E ele é dos bons e não o sabe.
Mas já descobriu o segredo que o intrigou meia vida. Só não percebe o que de tão difícil havia na explicação de tal coisa.
"Na televisão os bons ganham sempre, porque na vida real isso quase nunca acontece."
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